O escorpião

O tilintar das patas denunciaram um pequeno invasor em minha casa. De início pensei
nos não tão pequenos ratos, ou as tradicionais baratas. Me levantei lentamente, tentando não
abafar nenhum ruído que o penetra pudesse emitir, a fim de identificar sua localização.
Novamente ouvi as batidas leves conta o piso, girei o pescoço, tentando colocar as orelhas na
melhor direção para ouvir os leves ruídos. Identifiquei um local: entre a parede e a cômoda,
um móvel sólido, que faria muito barulho ao ser arrastado, ainda mais às 4 da manhã.
Tentei ver pela fresta entre o mogno e a parede e não consegui. As batidas
compassadas continuavam e se aproximavam da saída. Esperava vê-lo saindo da fenda, sem
ser necessário arrastar o móvel e trazer problemas com a vizinha de baixo, mas o animal parou
e durante alguns minutos não deu mais nenhum sinal de vida.
Eu fiquei ali, parado na frente da fresta, olhando até onde a luz do quarto podia
alcançar dentro da passagem, esperando algum ruído. Nada. Era quase 5 da manhã, mas o dia
ainda estava escuro e seria decente esperar pelo menos o amanhecer para arrastar o móvel.
Duas leves batidas isoladas no assoalho seguidas do mais completo silêncio inibiram minha
gentileza e decidi arrastar a cômoda.
Meus sentidos são bem aguçados, mas este não é um mérito somente meu. Moro em
uma vizinhança tranquila, sem grandes alvoroços, o que me inibiu de arrastar o móvel de
imediato, mas que permite identificar rapidamente se há algo atípico. Houve uma vez que ouvi
um ruído abafado por algo macio, quase imperceptível e quando me levantei para chegar, o
gato da vizinha estava caminhando pela minha sala. Eu espantei o gato, que saiu pelo mesmo
lugar que entrou, uma fresta na janela que fui obrigado a deixar por causa do verão. O gato
nunca mais foi visto, e dois meses depois foi substituído por uma gata já adulta, de pelo
vistoso e rajado.
Agarrei as bordas do móvel e arrastei-o por 5 centímetros, o que talvez não fosse
suficiente para ver o inseto, mas já me deixou esbaforido e com os músculos estirados.
Contornei a cômoda e agora a luz chegava até o final, iluminando um horrendo artrópode,
gigantesco, que exibia o ferrão reluzindo com a luz fraca, as patas se movimentavam tão
rápido em minha direção que minha única alternativa foi me afastar. Fui até a cozinha, arfando
e com o coração disparado, procurando qualquer coisa, talvez uma panela pesada o suficiente.
O primeiro instinto é sempre o de fugir e conforme ele foi se esvaecendo, comecei a achar o
escorpião uma boa desculpa para caso a Dona S., moradora do andar de baixo reclamasse do
ruído que provavelmente a tinha acordado. Talvez também fosse uma boa alternativa para
pedir uma reforma ou um desconto no aluguel. Sendo assim, era melhor conservar o bicho
vivo, e passei a procurar um recipiente para encurralá-lo.
Encontrei um pote de vidro, com uma placa de madeira que lhe servia de tampa.
Como eu o colocaria ali? Peguei um pedaço de papelão, retirado de uma revista velha, para
passar entre o invasor e o chão, enquanto colocava o vidro por cima. Ao voltar para o quarto,
não vi o animal de imediato. Pisando cautelosamente e me esgueirando pelas frestas, achei-o
embaixo da cama. Peguei uma pequena bolinha de papel e atirei em sua direção, ele então
saiu de seu esconderijo e me deixou realizar a manobra com mais espaço.
Prendi o animal no pote, coloquei-o em cima do armário da sala e voltei a me deitar.

Não devo ter dormido por muito tempo, pois o sol começava a nascer. Realizei a rotina
da manhã, de maneira mais desleixada e vagarosa, já que o incidente de mais cedo me
interrompeu o sono. Estava já na soleira da porta, quando de rabo de olho, como se já fosse
habitual, olhei para o topo do armário e meu olhar encontrou ali, o pote de vidro vazio. Peguei
um banco de madeira, coloquei na beira do armário, e subi no banco. Estava lá, o pote vazio,
com a tampa milimetricamente centralizada. Percorri o olhar por toda a superfície da madeira,
e nada. Conferi o fundo, as paredes do pote (seria este vazado em algum lado?) e nada.
Conferi a tampa, estava como deixei, então, como poderia o diabo não estar lá? Eu não
poderia me preocupar com isso agora, tinha trabalho, e agora a rotina se tornara ainda mais
pesarosa com um rombo constatado por um segundo contador. Quando chegasse iria
procurar o animal. Até o momento achava que seria provável que ele tivesse fugido.
Trabalhava num escritório no centro da cidade, área nobre e de grande visibilidade,
para uma atividade não tão grande nem tão nobre. Lidávamos com todo tipo de gente, e meu
trabalho era sempre fazer vista grossa e burocracia.
- bom dia doutor L.
-bom dia Sr. C, não parece tão bem, e chegou atrasado. Nada digno de repreensão, não é isso,
só não é do seu feitio atrasos.
- tive um problema em casa. Acordei com bicho no meu apartamento.
- conheço um bom dedetizador. Meu cunhado. Me lembre de te passar o contato dele.
Assim o dia ocorreu com diálogos tão interessantes quanto este. O roubo ocorrido há meses
trouxe certa emoção à rotina, mas logo a poeira abaixou. O dia foi tão monótono que me deu
tempo de sobra para pensar no meu problema. Como o bicho asqueroso havia fugido e
deixado a tampa no lugar? Ele teria de ter levantado a tampa, saído pela fresta que havia
criado e a tampa voltaria para a posição original. E se isso foi feito, ele ainda estaria em minha
casa? Onde ele gostava de se esconder? Sua picada era dolorosa? Poderia me matar?
Eu deixei a rotina entediante e o cheiro do álcool dos carimbos para finalmente, quem
sabe, obter a solução do mistério. Entrei em casa, vasculhei o armário, novamente conferi o
pote testando suas paredes, arrastei o sofá, olhei cada móvel da cozinha, tirei do lugar cada
panela e cada livro. Eu havia começado essa busca de maneira despretensiosa, mas a cada
falha, cada objeto movido sem sucesso na minha busca, eu me sentia mais frustrado e
determinado a encontrar o artrópode. Já havia passado da meia noite, eu já havia revirado
cada canto da casa, dobrado cada peça de roupa e nada.
Revirei as cobertas, mais uma vez, levantei o colchão, arrastei a cama para que não
entrasse em contato com a parede (ele sabia escalar? Não sabia responder. Mas não me
arriscaria). Me deitei as 23h, extenuado, mas ao menos consciente de que não havia um inseto
qualquer que fosse em minha casa. As 23h15min acordo de um cochilo breve, com algo sólido,
mas flexível, roçando minhas pernas. Estava se movimentando, eu tinha certeza, mas quando
parei, ele parou também. Minha perna formigou inteira, como se enxames de escorpiões
estivessem subindo pelo meu corpo, eu fiquei paralisado, ainda em dúvida se era um sonho ou
meu perseguidor implacável. Eu me acalmei e levantei a coberta, apenas para me certificar de

que era a etiqueta da confecção em que a coberta havia sido feita. Revirei o quarto todo
novamente, pela terceira vez, apenas por precaução.
Fui deitar novamente meia noite e meia. Minhas costas estavam doloridas pelo
esforço de arrastar a cômoda e a cama, por isso meu sono foi adiado, embora meus olhos
pesados insistissem em ficar fechados e minha mente vigilante em um tal turbilhão de ideias e
pensamentos, meu corpo com os músculos retesados e minha pele insistia em coçar e pinicar,
embora não houvesse nada que isso provocasse. Parecia que minha mente em estado de
vigília insistia em provocar no corpo aqueles sintomas. Meu corpo inteiro sentia aquela
presença, o perigoso invasor, que me derrotou e humilhou três vezes: na captura mal
sucedida, na busca mal sucedida, e no sono mal sucedido. Em algum momento pensei que
fosse demais para um homem estar em tal estado por causa de uma ameaça tão defectível, e
uma vez que minhas buscas foram minuciosas eu não havia nada a temer. Mas as reações
eram tão vívidas, a angústia seguia apertando meu diafragma e a frustração pesando sobre o
ombro. Creio que fui dormir somente quando cheguei à exaustão, às três da manhã, depois de
inúmeros sustos e sensações de oito pequenas pernas caminhando sobre meu corpo seguido
de um ardor indescritível, os barulhos de patinhas sobre o assoalho que me faziam levantar
subitamente, até eu concluir que nada eram.
Nem é necessário descrever o estado em que acordei. Na saída do prédio, estava
Dona S., me encarando com a carranca mal humorada de sempre. Tratei-a como qualquer
pessoa bem educada faria, mas ela aparentemente não se importava com qualquer convenção
social quando se tratava de mim. Para tentar quebrar o claro desconforto do nosso encontro
tentei perguntar se já havia tido problemas com pragas em seu apartamento, ao que me
respondeu de maneira insinuosa que o gato dava cabo de qualquer bicho. Seria compreensível
que o artrópode tivesse invadido a casa da doninha e o gato o matado? Ou o gato teria
invadido minha casa e o matado? Talvez o próprio gato o tivesse trago, já que é costume que
os felinos deixem animais mortos como presente para humanos, e um escorpião se finge de
morto quando atacado. Mas as janelas não estavam abertas na fatídica noite, e seria de uma
astucia sem precedentes o gato entrar em meu quarto. E não é costume entre os gatos
deixarem presentes a estranhos, se algum inseto fosse deixado seria para dona S. e esta, com
sua pouca simpatia por mim, teria um prazer sórdido de me ver revirando o apartamento, ou
correndo pelo pavimento, causando tamanho estardalhaço que justificaria uma repreensão
por parte do síndico. Estaria ela se divertindo neste momento com minha pergunta e evidente
preocupação com a praga? Teria ela plantado o bicho em meu apartamento? Ela, indecente e
mesquinha, e não duvido que ela alegue ao síndico que eu perturbo com a barulheira da
mobília para pechinchar o preço do aluguel.
Pelo segundo dia eu estava chegando num estado deplorável ao trabalho e meus anos
de subserviência não foram suficientes para evitar uma suspensão. Aquela era uma medida
drástica demais para apenas dois dias de atraso – se é que era apenas isso, pois nos últimos
meses Dr. C. agia comigo com uma cordialidade falsa, estava sempre a me olhar com o rabo do
olho. Por motivos legais um segundo contador apurará as contas – ele disse. Ao menos não era
uma demissão, e minha falta no escritório certamente o faria perceber meu valor. Fui para a
casa, desolado, mas não pelo incidente no trabalho.

Sentei-me na poltrona e em quanto lia, ouvi os estalos da madeira, e interrompia
imediatamente a leitura, voltava o pescoço na direção do ruído, e não ouvia mais nada. De vez
em quando ouvia ruídos semelhantes, moscas batendo na janela, salto alto no andar de cima e
logo pensava na praga. Perdi a noção de quantas vezes interrompi a leitura e seguiu até a
madrugada assim. Por volta das 2 da manhã tentei dormir, mas não poderia fazer isso sem
meu ritual. Redobrar cada roupa, sacudir cada cobertor,balançar cada livro, varrer em baixo de
cada mobília. Com cada canto da casa milimetricamente vasculhado me deitei, e as sensações
na pele voltaram. A todo tempo meu corpo reagia e minha mente completava, imaginando as
pequenas patas caminhando sobre meu corpo, e durante toda a madrugada eu me levantava,
sacudia as cobertas para me certificar de que nada havia lá. Um barulho mais conciso me faz
levantar, procurar por todo canto e nada encontrar. Aquele animal não poderia ter saído da
minha casa, não sozinho. Não haviam saídas, procurei por todos os lugares e seria impossível
de toda forma o animal levantar a tampa sozinho.
Dormi as seis da manha e acordei oito e meia. O horário comercial fez os
apartamentos todos ficarem vazios e eu poderia aproveitar para verificar se Dona S. realmente
tramava algo contra mim. Os apartamentos rotineiramente ficavam abertos, era uma
vizinhança muito segura, mas o da mulher não estava. Eu tinha força para arrombar a porta,
mas não habilidade para destrancar a fechadura, então decidi entrar pela porta que dava
acesso á varanda, que era possível que estivesse aberta. Não foi uma tarefa muito difícil, subi
no balaústre da minha própria varanda e depois escalei os balaústres do andar de cima. A
porta estava aberta e dava acesso a um apartamento requintado, com a gata sentada em uma
poltrona me olhando, obstinada. E sobre uma estante, ali estava a prova cabal. Um enorme
aquário de vidro, um terrário, com um enorme lagarto dentro. Um animal asqueroso, que bem
poderia se alimentar de insetos maiores como o meu intruso. Poderia muito bem Dona S. cria-
los para alimentar a iguana, ou o que quer que seja aquilo. Então era dali que vinha, isto é, se o
artrópode não fora plantado em minha casa, meticulosamente, ou removido da mesma
maneira.
Eu estava tão centrado e me sentindo tão infalível, que nem sequer ouvi o barulho da
chave no trinco, só ouvi a maçaneta girando e a esta altura já era tarde demais. Entrou o
síndico, com uma expressão de asco e repulsa, certamente me julgou por algum tarado, e
antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele ergueu a mão e começou:
- Não me importam quais motivos o trouxeram aqui. Eu o vi escalando pela sacada. Não sei
que tipo de relação estabelece com S., e o que ela fez não me interessa. O que houve aqui é
muito sério – e eu poderia chamar a policia, certamente o senhor iria preso na hora. Mas vou
poupar o sr. e o proprietário de tal escândalo, e a única coisa que lhe peço é que se mude. Vou
contar três dias, a partir deste incidente, e peço que nunca mais eu volte a vê-lo.
Eu saí, pela porta da frente, com o síndico atrás de mim, vigiando-me. Havia perdido as
contas de quantas derrotas sofri - a casa, o emprego, o sono, e a sanidade. Para concluir, -
depois de nada mais me restar – de que não existira nenhum escorpião.

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